Finasterida: para que serve, como age e o que esperar do tratamento

Finasterida para calvície: o que é, como age e o que esperar do tratamento

Se você chegou até aqui, provavelmente está lidando com a queda de cabelo ou buscando entender melhor as opções de tratamento. A finasterida é, sem dúvida, um dos medicamentos mais estudados e prescritos no mundo para alopecia androgenética — a calvície de causa hormonal do homem. Como médico, uso esse medicamento na prática clínica há anos e quero te explicar, de forma clara e baseada em evidências, como ele funciona, para quem é indicado e o que você pode realmente esperar.

Para que serve a finasterida?

Para entender a finasterida, preciso te falar primeiro sobre o DHT — a di-hidrotestosterona. Esse hormônio é derivado da testosterona e é o principal responsável pela miniaturização progressiva dos folículos capilares em pessoas geneticamente predispostas. Em termos simples: o DHT encolhe o folículo até ele parar de produzir fio.
A finasterida é um inibidor da enzima 5-alfa-redutase tipo II — a enzima responsável por converter a testosterona em DHT. Ao bloqueá-la, o medicamento reduz os níveis de DHT no couro cabeludo em torno de 64% e no soro em cerca de 68%, conforme demonstrado em estudos de dose-resposta.¹ Com menos DHT circulante localmente, os folículos param de miniaturizar e muitos conseguem se recuperar, voltando a produzir fios com espessura normal.

Quando a finasterida é indicada?

A indicação clássica é a alopecia androgenética masculina, já a partir dos estágios iniciais da calvície. Na prática, indico finasterida quando o paciente apresenta miniaturização progressiva confirmada — seja clinicamente, seja por tricoscopia — e deseja frear a perda antes de considerar um transplante.

Em mulheres, o uso é off-label e reservado para casos específicos de alopecia androgenética feminina, geralmente após a menopausa e com avaliação hormonal criteriosa, uma vez que o medicamento é contraindicado na gravidez pelo risco de malformação e feminização do feto masculino.

 

Importante: a finasterida não trata calvície por deficiência de ferro, hipotireoidismo, alopecia areata ou outras causas não androgênicas. O diagnóstico correto é o ponto de partida.

O que dizem as evidências sobre a eficácia?

Os dados são sólidos. Em dois ensaios clínicos randomizados de fase III, com 1.553 homens entre 18 e 41 anos recebendo 1 mg/dia de finasterida, o tratamento promoveu melhora significativa da densidade capilar em todas as métricas avaliadas ao longo de dois anos (p < 0,001 versus placebo em todas as comparações).4 No acompanhamento de cinco anos, o tratamento com finasterida levou a uma redução de 93% na probabilidade de desenvolvimento de perda capilar visível adicional, em comparação com o placebo (IC 95%: 89–97%; p < 0,001).5
A finasterida funciona melhor na região do vértice (topo da cabeça) e é menos eficaz na linha anterior do couro cabeludo. Por isso, em pacientes com entradas muito avançadas, costumo combinar o medicamento com outras abordagens — como minoxidil tópico ou, nos casos indicados, o transplante capilar.

Resultados esperados: o que você vai ver e quando?

Esse é um ponto crucial, porque a principal causa de abandono precoce do tratamento é a expectativa errada. A finasterida não age rápido. Nos primeiros 3 a 6 meses, o objetivo é apenas estabilizar a queda — e muitos pacientes ficam frustrados achando que o remédio não funciona justamente nessa fase.
Estudos de longo prazo demonstram que a eficácia clínica é perceptível a partir dos 3 meses e se consolida progressivamente ao longo de 5 a 10 anos de uso contínuo.6,7 Uma expectativa realista:


• 3 a 6 meses: estabilização da queda.
• 6 a 12 meses: possível melhora da espessura e densidade dos fios existentes.
• 12 a 24 meses: resultado mais consolidado, com repigmentação e crescimento visível em área de vértice.


O medicamento precisa ser mantido continuamente. Se suspenso, os níveis de DHT voltam ao normal em cerca de 2 semanas e a queda progride novamente ao longo de 6 a 12 meses, como se o tratamento nunca tivesse sido feito.

Efeitos colaterais: o que diz a literatura científica?

Esse é o tema que mais gera dúvidas e, infelizmente, também o que mais circula com informações distorcidas. Vou ser direto com você: efeitos colaterais existem, são descritos na literatura, mas ocorrem em uma minoria significativamente menor do que a percepção popular sugere.
Os efeitos sexuais — redução da libido, disfunção erétil e alterações no volume do ejaculado — são os mais relatados. Revisões sistemáticas dos estudos controlados estimam que esses efeitos ocorrem em 2,1% a 3,8% dos pacientes.8 Na vasta maioria dos casos, são reversíveis com a suspensão do medicamento. Vale mencionar também o fenômeno do nocebo: em estudo randomizado, pacientes que foram informados sobre os efeitos sexuais antes do tratamento relataram incidência significativamente maior de disfunção do que aqueles que não receberam essa informação, sugerindo que a expectativa negativa pode amplificar a percepção dos sintomas.9
Outros efeitos descritos incluem leve sensibilidade mamária, alterações de humor e, menos frequentemente, dores musculares. Um aspecto clinicamente relevante: o medicamento reduz o PSA sérico em torno de 50%, conforme demonstrado tanto para a dose de 5 mg quanto para a dose de 1 mg/dia.10,11 Isso deve ser levado em conta em homens acima de 40 anos que fazem rastreamento de câncer de próstata — recomenda-se dobrar o valor medido para uma interpretação correta.


Na minha prática, oriento todos os pacientes antes de iniciar, peço exames laboratoriais de base e mantenho acompanhamento periódico. Transparência é fundamental para uma boa adesão ao tratamento.

Mas e a síndrome pós-finasterida?

Ao longo desse texto, falei sobre efeitos colaterais que, em geral, regridem com a suspensão da finasterida. Mas existe um grupo de pacientes que relata sintomas persistentes mesmo após parar o uso, e esse conjunto de manifestações ganhou nome: a síndrome pós-finasterida.

É um tema controverso, ainda em investigação pela comunidade científica, mas que merece atenção e respeito, especialmente quando um paciente chega ao consultório com essas queixas. No próximo artigo, vou destrinchar o que se sabe até agora sobre essa condição: o que a literatura diz, quais mecanismos estão sendo estudados e como o médico deve conduzir esses casos.

Se esse assunto te interessa — seja como paciente, seja como profissional — não perca o próximo post.

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Dr Marlon Oliveira

Médico Cirurgião Geral voltado ao tratamento da calvície
CRM/SC 25.847 - RQE 19.135

Referências

1. Drake L, Hordinsky M, Fiedler V, Swinehart J, Unger WP, Cotterill PC, et al. The effects of finasteride on scalp skin and serum androgen levels in men with androgenetic alopecia. J Am Acad Dermatol. 1999;41(4):550–4. doi: 10.1016/S0190-9622(99)70007-6.
2. Asfour L, Cranwell W, Sinclair R. Male androgenetic alopecia. In: Feingold KR, Anawalt B, Boyce A, et al., editors. South Dartmouth (MA): MDText.com, Inc.; 2000 [updated 2023].
3. Mella JM, Perret MC, Manzotti M, Catalano HN, Guyatt G. Efficacy and safety of finasteride therapy for androgenetic alopecia: a systematic review. Arch Dermatol. 2010;146(10):1141–50. doi: 10.1001/archdermatol.2010.256.
4. Kaufman KD, Olsen EA, Whiting D, Savin R, DeVillez R, Bergfeld W, et al. Finasteride in the treatment of men with androgenetic alopecia. J Am Acad Dermatol. 1998;39(4):578–89. doi: 10.1016/S0190-9622(98)70007-6.
5. Gubelin Harcha W, Barboza Martínez J, Tsai TF, Katsuoka K, Kawashima M, Tsuboi R, et al. A randomized, active- and placebo-controlled study of the efficacy and safety of different doses of dutasteride versus placebo and finasteride in the treatment of male subjects with androgenetic alopecia. J Am Acad Dermatol. 2014;70(3):489–98. doi: 10.1016/j.jaad.2013.10.049. 
6. Finasteride Male Pattern Hair Loss Study Group. Long-term (5-year) multinational experience with finasteride 1 mg in the treatment of men with androgenetic alopecia. Eur J Dermatol. 2002;12(1):38–49. PMID: 11809594.
7. Rossi A, Cantisani C, Melis L, Iorio A, Scali E, Calvieri S. Minoxidil use in dermatology, side effects and recent patents. Recent Pat Inflamm Allergy Drug Discov. 2012;6(2):130–6. doi: 10.2174/187221312800166861.
8. Ekpe E, Okafor C. Finasteride and sexual side effects. Indian Dermatol Online J. 2012;3(1):62–5. doi: 10.4103/2229-5178.93496.
9. Mondaini N, Gontero P, Giubilei G, Lombardi G, Cai T, Gavazzi A, et al. Finasteride 5 mg and sexual side effects: how many of these are related to a nocebo phenomenon? J Sex Med. 2007;4(6):1708–12. doi: 10.1111/j.1743-6109.2007.00563.x.
10. Gormley GJ, Stoner E, Rittmaster RS, Gregg H, Thompson DL, Lasseter KC, et al. The effect of finasteride in men with benign prostatic hyperplasia. N Engl J Med. 1992;327(17):1185–91. doi: 10.1056/NEJM199210223271701.
11. D’Amico AV, Roehrborn CG, Kirby R, Kramer BS, Eastham JA, Freedland SJ, et al. Effect of 1 mg/day finasteride on concentrations of serum prostate-specific antigen in men with androgenic alopecia: a randomised controlled trial. Lancet Oncol. 2007;8(1):21–7. doi: 10.1016/S1470-2045(06)70981-0.

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